15 anos de hospital — e o que a UTI me ensinou sobre cuidar

Antes de entrar nas casas das famílias, passei 15 anos dentro de hospitais. UTI, enfermaria, reabilitação pós-cirúrgica — aprendi o que poucos fisioterapeutas aprendem: como funciona o corpo quando está no limite, e o que faz a diferença entre recuperar e não recuperar.

A UTI ensina humildade. Ensina a ler o paciente além do diagnóstico, a trabalhar sob pressão, a tomar decisões rápidas com base em observação clínica real. Essa vivência forma um olhar que nenhum livro substitui.

"Quem passou pela UTI aprende que cada detalhe importa. Essa atenção — ao paciente, à família, ao ambiente — é o que levo para dentro de cada casa que atendo até hoje."

O SUS completou essa formação: a diversidade real de pacientes, condições e realidades socioeconômicas. Aprendi a adaptar, a entregar resultado dentro de qualquer realidade.

Por que o idoso virou minha especialidade

Ao longo dos anos, percebi que a maior dor não era do paciente. Era da família.

A filha que largou a vida profissional para cuidar do pai. O filho que não sabe se está fazendo certo. A esposa que está com 70 anos cuidando do marido de 80. Todos exaustos. Todos com medo. E todos sem orientação adequada sobre o que fazer no dia a dia.

Percebi que o problema não era só clínico — era organizacional. As famílias não sabiam como cuidar. Não porque não queriam. Porque nunca ninguém ensinou.

"Cuidar não pode ser improviso. Mas na maioria das casas, é exatamente isso que acontece — e a família paga um preço alto por isso: quedas, piora funcional, sobrecarga emocional."

Como o Método Passo Seguro foi criado

Depois de anos de atendimento domiciliar, comecei a perceber padrões. As famílias que tinham mais sucesso — onde o idoso melhorava mais, onde a sobrecarga era menor — compartilhavam quatro características em comum.

Tinham um trabalho consistente de força muscular. Praticavam exercícios de equilíbrio preventivo. Mantinham a mobilidade através de atividades do dia a dia. E, principalmente, tinham a organização do cuidado — rotinas definidas, ambiente adaptado, família alinhada.

Não foi uma descoberta de um dia. Foi a sistematização de 20 anos de observação dentro das casas reais de famílias reais. E a partir disso nasceu o Método Passo Seguro.

Da reabilitação funcional à saúde respiratória e ao CPAP

Com o tempo, o atendimento domiciliar me levou para além da reabilitação funcional. Muitos dos meus pacientes idosos tinham problemas respiratórios — DPOC, insuficiência respiratória, uso de oxigênio em casa. E precisavam de reabilitação dentro do domicílio.

Paralelamente, a apneia do sono se tornou cada vez mais presente. Pacientes com diagnóstico, CPAP prescrito — mas sem orientação adequada para usar o equipamento e aderir ao tratamento. Comecei a oferecer também avaliação, adaptação e acompanhamento para uso de CPAP, além da espirometria para diagnóstico respiratório.

Andressa Schmidt no Curso de Extensão em Fisioterapia do Sono

Curso de Extensão em Fisioterapia do Sono — especialização contínua

"A saúde do idoso não cabe em uma especialidade só. Aprendi a olhar para o paciente inteiro — e a oferecer o suporte que cada família realmente precisa."

Do domicílio para o palco: projetos premiados nos maiores congressos do país

Em 2023, fui premiada no COSEMS/SC pelo projeto de implantação do Centro de Reabilitação Cardiorrespiratória em Guaramirim/SC — levando reabilitação especializada para uma cidade que não tinha acesso a esse serviço pelo SUS.

Em 2025, voltei ao palco do COSEMS/SC com o projeto "Equipe Mais Cuidados: Transformando Vidas com Acompanhamento Multidisciplinar em Idosos Pós Alta Hospitalar" — o modelo de integração Hospital–UBS–Domicílio desenvolvido em Jaraguá do Sul. Novamente premiada.

Andressa Schmidt apresentando no 9º Congresso COSEMS/SC 2025

Apresentação no 9º Congresso COSEMS/SC — Blumenau, março 2025

Andressa Schmidt recebendo prêmio no COSEMS/SC 2025

Recebendo o prêmio no 9º Congresso COSEMS/SC — 2025

Andressa Schmidt no XXXVIII Congresso CONASEMS

XXXVIII Congresso CONASEMS — o maior evento de saúde pública do mundo, em Belo Horizonte

"Dois prêmios no COSEMS/SC. Dois projetos que nasceram da prática dentro dos serviços de saúde. Levar o que aprendo no domicílio e no SUS para o debate nacional — e trazer de volta para as famílias — é o que me mantém comprometida com esse trabalho."

HISTÓRIAS QUE EU CONTO SEMPRE

Por trás de cada caso existe uma história humana.

Estas são as duas histórias que mais marcaram minha trajetória e que moldaram como atendo hoje.

A filha que carregava tudo sozinha

Ela tinha 52 anos e cuidava do pai de 78 há dois anos. Sem apoio dos irmãos, sem orientação, sem descanso. O pai tinha caído três vezes nos últimos seis meses. Ela dormia mal, chorava escondida, sentia que a própria vida tinha parado.

Quando começamos o acompanhamento, ela me disse: "Eu não sei se estou fazendo certo. Nunca ninguém me ensinou."

"Antes eu vivia com medo do meu pai cair e não sabia se estava cuidando da forma certa. Depois do acompanhamento, ele ficou mais seguro, com menos quedas, e conseguimos organizar melhor a rotina. Hoje eu me sinto mais tranquila e não carrego tudo sozinha."
Ver reabilitação domiciliar →

O paciente que vivia no oxigênio

78 anos, DPOC avançada. Usava oxigênio praticamente o dia inteiro. A família estava resignada — achava que aquilo era o estado permanente. Quando começamos a fisioterapia respiratória domiciliar, ninguém esperava grande melhora.

Em poucos meses, o cenário mudou completamente. Reduziu o tempo de uso de oxigênio. Voltou a fazer pequenas atividades. E o momento do atendimento se tornou o melhor do dia para ele.

"Meu pai usava oxigênio praticamente o dia todo e estava cada vez mais dependente. Com o acompanhamento, ele melhorou muito, reduziu o tempo de uso e voltou a se sentir mais ativo."
Ver fisioterapia respiratória →

O QUE EU ENSINO, EU VIVI

Nada aqui veio de teoria.

Cada orientação que dou passou pela realidade das casas que atendo há mais de 20 anos.

1

Organizar o cuidado é o que traz segurança

Não existe cuidado bom sem rotina organizada. Aprendi isso observando as famílias onde o idoso evoluía mais — e as que ficavam presas no improviso.

2

A família faz parte do tratamento

Tratar o idoso sem orientar a família é tratar metade do problema. Quem cuida precisa entender o que está fazendo — e por quê. Quando isso acontece, os resultados mudam.

3

Quem cuida também precisa ser cuidado

A filha sobrecarregada não tem como cuidar bem do pai. O cuidador exausto comete erros. Por isso, olho sempre para a família como um todo — não só para o paciente.

4

O olhar de UTI dentro do domicílio

15 anos em hospital me ensinaram a nunca subestimar um sintoma. Levo esse olhar para cada atendimento domiciliar — e é isso que permite agir antes que um problema pequeno vire uma internação.

5

Cuidar bem não custa mais — custa diferente

Com orientação certa, muitas famílias conseguem reduzir quedas, dependência e até a necessidade de cuidadora. O investimento em fisioterapia domiciliar muitas vezes custa menos do que não ter.

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